domingo, 4 de junho de 2023

Preenchendo a Existência

    Era pra ser só mais uma noite gelada de outono. Mas algo estava para acontecer, a névoa que cobria a Vila escondia algo impensável até ali. Já passava da meia-noite, a rua escorregadia e coberta de folhas de plátanos e macieiras exigia cuidado para qualquer um que se aventurasse por aquelas ruas com paralelepípedos gastos pelos anos. 
     Não pra ele. Não bastasse ter vivido uma vida, conhecia cada centímetro daquele lugar. Agora levitava ao sabor da brisa. O vento uivante e as silhuetas empoleiradas nas árvores, projetadas pela luz artificial da rua poderiam amedrontar a qualquer um. 
     Sabia que o que estava prestes a rememorar teria um impacto avassalador. Mas era isso, ansiava voltar a sentir; sentir emoções, calafrios. Não sabia o que era isso desde que partira para a outra dimensão. 
     Sua última esperança era buscar o mais impactante de sua vida terrena, pois que, penetrando tão fundo, talvez pudesse despertá-lo novamente. Já não se importava por ter ido, mas queria que sua existência eterna fosse preenchida ao menos de sentimentos. 
     Avistou o casarão, com seus arcos imponentes, envolto em uma névoa espessa. Foi ziguezagueando por entre as colunas, até a entrada principal, ficou ali, sob os grandes arcos. 
     Precisou atingir o patamar superior, mas algo o deteve ali, tinha que passar o tempo, contemplando o lugar, rememorando. Na verdade o passo seguinte significava o tudo ou o nada, por isso sua hesitação. Sabia que nada mais haveria de fazer diante de um insucesso ali. 
     Enfim, aproveitando-se de uma lufada vigorosa da brisa, flutuou até o patamar superior do ambiente, entrou por uma pequena passagem na janela, fazendo esvoaçar assustadoramente as cortinas. Dirigiu-se até a poltrona disposta de frente à janela. 
     Abriu a gaveta do pequeno balcão, afastou as teias de aranha, a poeira acumulada sobre a capa daquele álbum de fotografias. Hesitou ainda, mas finalmente o retirou dali com cuidado! 
     Abriu e foi contemplando, é um álbum de família, daqueles que passam de geração em geração. Deteve-se um pouco em cada página, cada rosto, conseguiu rememorar um pouquinho da história de cada um. 
    À medida que folheava o álbum sentia uma pressão, um aperto, não sabia o que era. Mas procurava deter-se cada vez a contemplar aqueles rostos e buscar mais no fundo suas histórias. Podia se deixar ficar por quanto tempo quisesse, ninguém viria ali. 
    Havia naquelas fotos um rosto em especial, que as mesmas circunstâncias que os fizeram conhecidos também não permitiram a união. Uma filha adotiva, que ao mesmo tempo não tinha o sangue dele, mas era membro da família. 
     Ali naquele sótão foram marcados muitos encontros. Era um lugar só deles, cada noite liam um poema e se encantavam juntos. Nada demais acontecia. 
    Tinham hora marcada, assim que a grande ave se agitasse nos galhos da árvore em frente era hora de se despedir. A coruja tinha o hábito de bater asas toda vez que via movimentação próximo à janela, no patamar inferior. 
    Enquanto recordava sua história sentia que não fora inútil sua vinda até aquele lugar, sentia-se agitado. Resolveu se deter naquele rosto por mais tempo. 
    Por vezes ficavam a contemplar as estrelas pela vidraça, trocavam olhares de cumplicidade, pequenas carícias, juras de amor, liam trechos de algum romance, o preferido era Romeu e Julieta. 
    Mesmo um sentimento tão profundo não era suficiente para ele abandonar aqueles dogmas familiares, sim, dogmas, já que não eram irmãos de verdade!
    -Vamos pra longe daqui - dizia ela. 
    Mas ele insistia que não poderia abandonar sua família. E assim o tempo ia passando, cada vez mais difícil suportar aquela dor. Ele chorou sobre aquela foto. Quis parar, mas era tarde, teria que ir até o final. Não queria lembrar do último encontro, talvez por culpa, seria dolorido demais suportar. 
     Aguardando seu amado, ela já sem esperanças, com o coração transbordando de amor, do parapeito da janela fitou o grande pássaro pela última vez. 
     Agora, na Vila Bernardi, os espíritos da Terra da Longevidade também choram.


    * Segundo lugar no 20º Concurso Literário de Veranópolis, 2022

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